1930

O ESCRITOR

DOMINGOS MONTEIRO

(1903-1980)

Cronologia

Obras

Versos

Traduções

Referências

Centenário

 
Domingos Monteiro faleceu em 17 de Agosto de 1980, com setenta 
e sete anos de idade.  Advogado, escritor, jornalista, editor, a sua vida 
atravessou quase oito décadas, em que a sua personalidade se afirmou por 
uma constante busca de um destino, onde os seus ideais de liberdade se 
transformam, não raras vezes, em sonhos singulares, de enigmáticas 
radiações.
A casa do Escritor, em Mesão-Frio

Transmontano de boa cepa, nasceu em Barqueiros, a seis de Novembro de 
1903.  Era filho legítimo de Domingos Monteiro Pereira e de sua Mulher, 
D. Elvira de Assunção Coelho Monteiro, ambos naturais da mesma freguesia 
de Barqueiros.  Neto paterno de António Monteiro Pereira e de D. Maria 
Monteiro do Carmo, e materno de José Carlos Rodrigues Coelho e de D. 
Virgínia Benedita de Assunção Coelho.

Antes mesmo de entrar para a Universidade de Lisboa, onde viria a 
licenciar-se em Direito, com dezoito valores, no ano de 1927, já a sua 
veia poética se tinha manifestado.  Aos dezasseis anos publicou o 
primeiro livro de versos, Oração do Crepúsculo (1919), prefaciado por 
Teixeira de Pascoais, seguido, dois anos depois, pela Nau Errante, que 
dedicou a este grande poeta. O primeiro soneto desta obra é quase uma             
consagração:

                 "Meu livro é para vós, para vós feito...
                  é para vós, mulheres do meu país."         

 A obra escrita de Domingos Monteiro, em horas de isolamento e de evasão, 
revela, inevitavelmente, a personalidade de um grande conversador.  
Através das suas narrativas, o escritor confessa-se e olha para o mundo 
exterior, numa ânsia de liberdade.  Foi este anseio de liberdade que o 
levou, ainda jovem, a fundar o "Partido da Renovação Democrática" e 
depois o jornal "Diário Liberal" de que foi membro da Comissão Directiva 
e Director Executivo.  Já licenciado, foi advogado de defesa de Mário 
Castelhano e de Manuel Rijo e de muitos outros opositores do regime 
político então vigente.

Domingos Monteiro tinha, entretanto, contraído matrimónio  com D. Maria 
Palmira de Aguilar Queimado (1938).  Deste casamento, nasceu a sua única 
filha, Estela, hoje Professora  da Faculdade de Medicina de Lisboa.

O casamento foi dissolvido por divórcio, em 1946, e só muito mais tarde, 
em 1971, Domingos Monteiro contrai de novo matrimónio, com D. Ana Maria 
de Castro e Mello Trovisqueira.

Já nessa altura os seus méritos de Escritor tinham sido publicamente 
reconhecidos.  Em 1965 o seu livro O Primeiro Crime de Simão Bolandas 
tinha recebido o "Prémio Nacional de Novelística"; no mesmo ano, o Dr. 
Domingos Monteiro foi eleito Sócio Correspondente da Academia de 
Ciências de Lisboa.  Como Sócio Efectivo, sucedeu, em 1969, na Cadeira 
que tinha pertencido a Aquilino Ribeiro, logo antes de Delfim Santos.
O Brasil, por proposta de Pedro Calmon e Jusoé Montello, entregou-lhe 
igualmente o lugar que, na Academia Brasileira de Letras tinha 
pertencido a outros ilustres escritores portugueses:  Eugénio de Castro, 
Augusto de Castro e Joaquim Paço d'Arcos.

Outras distinções consagraram a sua obra: de novo o "Prémio Nacional de 
Novelística", em 1972, o "Prémio Diário de Notícias" em 1967.

Vários livros e contos foram traduzidos em Castelhano,Catalão, Inglês, 
Alemão, Polaco e Russo, e incluídos em diversas antologias nacionais e 
estrangeiras.

E o Cinema não deixou  de aproveitar as suas novelas para a realização 
de grandes-metragens, apresentadas nas salas de  televisão.

Para além da sua actividade de escritor e editor, à frente da Sociedade 
de Expansão Cultural, que durante vários anos divulgou as obras de 
autores portugueses, muitos deles até então inéditos, Domingos Monteiro 
dedicou os últimos vinte e dois anos da sua vida profissional ao Serviço 
de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que ajudou a             
criar. 

Foi na novelística que Domingos Monteiro mais se distinguiu.  A sua 
prosa é directa e fluente.  António Quadros assim o reconheceu, ao 
afirmar:

"Uma novelística da razão vital, como a que realizou, intuitiva e 
exemplarmente, Domingos Monteiro, é uma novelística que se amplia                          
a todas as dimensões de ser homem, na sociedade, na natureza, no tempo e 
no mistério de existir."
 
Na bibliografia de Domingos Monteiro só aparece uma obra ostensivamente 
designada por romance, Caminho para Lá, talvez por ser constituída por 
dezoito capítulos.  Seria a primeira de um tríptico que nunca foi 
concluído.

Domingos Monteiro considerava-se um poeta, embora quase toda a sua obra 
tenha sido vertida em prosa.  Mas poeta era, sem dúvida.  Para além dos 
primeiros livros de versos que publicou na sua juventude, e a que já 
atrás nos referimos, apenas nos deixou dois outros livros de poemas: 
Evasão, publicado em 1953 e, mais recentemente, uma colecção  de              
sonetos publicada em  1978.  Mas no seu espólio foram encontrados muitos 
poemas inéditos, alguns dos quais dedicados a sua futura Mulher, D.Ana 
Maria.  Num deles, talvez influenciado pela grande diferença de idades, 
diz:

                         "Nunca senti passar o tempo... Nunca!
                         Nunca o tempo jamais me perturbou...
                         E as folhas secas com que o Outono junca o chão
                         sem mágoa ao próprio vento as dou,

                         Nunca senti passar o tempo... e agora
                         Do meu desdém, o tempo se vingou
                         E só por ti minh'alma se enamora
                         Humildemente, do que já não sou.

                         Oh minha ardente mocidade, volta!
                         Por um momento só. Que eu viva apenas
                         Esse momento... e possa merecê-la.

                         Que humildemente aceito, sem revolta,
                         Todas as dores, meu Deus! todas as penas
                         E até a maior pena... a de perdê-la!" 



Foi a sua segunda Mulher que teve um papel importante na génese dos seus 
contos e narrativas, publicados depois dos anos 60, colaborando 
estreitamente com ele, em todas as fases da elaboração do seu trabalho.

Domingos Monteiro arquitectava o enredo dos seus livros e construia 
mentalmente o plano da obra.  Os seus últimos livros foram ditados a D. 
Ana Maria como quem conta um conto:

A partir daí, era a ela que competia a edição do texto e a sua conclusão 
até toda a obra estar impressa.

 
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