1969

O Escritor

DOMINGOS MONTEIRO

(1903-1980)

POESIAS DISPERSAS

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Centenário do Nascimento


Minha adorada língua portuguesa,
Tão rica em si mesma e tão fecunda,
Pão sem fermento com que como à mesa
E alegria vital que ainda me inunda,

Desde o bárbaro latim, que vou seguindo
Teu caminho de som, abrindo às almas
Uma nova harmonia singular,
Tão doce e pura ao mesmo tempo que eu
Por ti desço ao inferno e subo ao céu
Pela graça de ouvir e de falar.

Sigo-te, sim, mesmo através da História,
A que só tu pudeste dar sentido,
Porque só tu conservas a memória
Do que já foi e ainda há-de ser vivido.

Tu que abriste em flor nos cancioneiros
Nas queixas doces dos cantares de amigo,
Inventaste essa porta enfeitiçada
Que separa ou une os corações
E que deste os teus frutos verdadeiros
Com Gil Vicente e os versos de Camões,

Língua de blasfémias, de ameaças,
De musicais hipérboles sentidas,
Que rasto singular por onde passas
E que estranho sinal deixas nas vidas!

Tu que atravessaste os desertos
E os mares bravios nunca navegados,
Com palavras que são braços abertos
E que nas bocas rudes e agressivas,
Feitas para gritar e p'ra morder,
Puseste o enxame das palavras vivas
Com que te falam e amam sem saber.

Poesia, Poesia, ninguém sabe donde brotas

Forma triste da alegria

Imensa em tua agonia

Maior em tuas derrotas

Pousa a tua cabeça no meu peito
Nas minhas mãos as tuas mãos inquietas
Vamos os dois caçar as borboletas
As quimeras dum sonho insatisfeito.

Será de lírios castos nosso leito
Como as almas dos lívidos profetas
De todo o mundo, enfim, virão poetas
Cantar o nosso amor calmo e perfeito

Ao jeito antigo, calçarás sandálias
E eu curvar-me-ei por sobre as áleas
Para beijar a sombra de teus pés.

Todos te sonharão em teu mistério
Serás p'ra eles como um vulto aéreo
Mas só eu saberei como tu és.

No jardim a tarde esquece
Os longos dedos de infanta
Enquanto o repuxo canta
Há uma rosa que adormece

A esta hora tudo me espanta
Tudo, tudo me enternece
Enquanto o repuxo canta
E aquela rosa adormece.

Há feitios de sandálias
Na areia fina moldados
E eu curvo-me sobre as áleas
A beijar essas pisadas

E o repuxo canta, canta
Talvez tenha enlouquecido
A alma da água o levanta
Vai toda feita em ruído.

No jardim a tarde esquece
Seus dedos longos de infanta
Enquanto o repuxo canta
E aquela rosa adormece.

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